CANDIDO OU O OTIMISMO DE VOLTAIRE PDF

Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Partiremos dos pressupostos da teoria marxista da literatura. Quais os motivos que geraram esta terminologia? Luzes versus trevas significa capitalismo versus feudalismo.

Author:Kajinris Ararr
Country:Zimbabwe
Language:English (Spanish)
Genre:Science
Published (Last):1 February 2010
Pages:162
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ISBN:692-1-99128-711-5
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De como foi Cвndido criado em um lindo castelo, e como dali o escorraзaram Havia em Vestfбlia, no castelo do senhor barгo de Thunder-ten-tronckh, um jovem a quem a natureza dotara da нndole mais suave. Sua fisionomia lhe anunciava a alma. Era reto de juнzo e simples de espнrito, razгo pela qual, creio eu, o chamavam de Cвndido.

Suspeitavam os velhos criados que fosse filho da irmг do senhor barгo e de um bom e honrado gentil-homem da vizinhanзa, com quem esta jamais consentira em casar-se, porque ele sу pudera alegar setenta e uma geraзхes, havendo as injъrias do tempo destruнdo o resto da sua arvore genealуgica. Era o senhor barгo um dos mais poderosos senhores de Vestfбlia. Sua sala de honra ostentava, atй, uma tapeзaria.

Todos os seus cгes, reunidos, formavam, em caso de precisгo, uma boa matilha; o vigбrio da aldeia era o seu esmoler-mor. Tratavam-no todos por Monsenhor e riam quando ele contava histуrias. A senhora baronesa, que pesava cerca de trezentas e cinqьenta libras, granjeava com isso enorme consideraзгo, e fazia as honras da casa com uma dignidade que a tornava ainda mais respeitбvel.

Sua filha Cunegundes, que contava dezessete anos, era corada, fresca, rechonchuda, apetitosa. O filho do barгo parecia em tudo digno do pai. Pangloss ensinava metafнsico — teуlogo — cosmolonigologia. Provava admiravelmente que nгo hб efeito sem causa e que, neste que й o melhor possнvel dos mundos, o castelo do senhor barгo era o mais belo possнvel dos castelos e a senhora a melhor das baronesas possнveis.

Estб demonstrado, dizia ele, que as coisas nгo podem ser de outra maneira: pois, como tudo foi feito para um fim, tudo estб necessariamente destinado ao melhor fim. Queiram notar que os narizes foram feitos para usar уculos, e por isso nуs temos уculos. As pernas foram visivelmente instituнdas para as calзas, e por isso temos calзas. As pedras foram feitas para serem talhadas e edificar castelos, e por isso Monsenhor tem um lindo castelo; o mais considerбvel barгo da provнncia deve ser o mais bem alojado; e, como os porcos foram feitos para serem comidos, nуs comemos porco o ano inteiro: por conseguinte, aqueles que asseveravam que tudo estб bem disseram uma tolice; deviam era dizer que tudo estб o melhor possнvel.

Cвndido ouvia com toda a atenзгo e acreditava inocentemente; pois achava a senhorita Cunegundes extremamente formosa, embora jamais se atrevesse a lho dizer.

Concluнa que, depois da ventura de ter nascido barгo de Thunder-ten-tronckh, o segundo grau de felicidade consistia em ser mademoiselle Cunegundes; o terceiro, em vк-la todos os dias; e o quarto, em ouvir mestre Pangloss, o maior filуsofo da provнncia, e por conseguinte de toda a terra.

Um dia, em que passeava nas proximidades do castelo, pelo pequeno bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o doutor Pangloss que estava dando uma liзгo de fнsica experimental а camareira de sua mгe, moreninha muito bonita e dуcil. Como a senhorita Cunegundes tivesse grande inclinaзгo para as ciкncias, observou, sem respirar, as repetidas experiкncias de que foi testemunha; viu com toda a clareza a razгo suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar sбbia, e pensando que bem poderia ela ser a razгo suficiente do jovem Cвndido, o qual tambйm podia ser a sua.

Encontrou Cвndido ao voltar para o castelo, e enrubesceu; Cвndido tambйm corou; ela cumprimentou-o com voz entrecortada, e Cвndido falou-lhe sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, Cunegundes e Cвndido encontraram-se atrбs de um biombo; Cunegundes deixou cair o lenзo, Cвndido apanhou-o, ela tomou-lhe inocentemente a mгo, o jovem beijou inocentemente a mгo da moзa com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graзa toda especial; suas bocas encontraram-se, seus olhos fulguraram, seus joelhos tremeram, suas mгos perderam-se Ora, o senhor barгo de Thunder-ten-tronckh passou junto ao paravento e, vendo aquela causa e aquele efeito, correu Cвndido do castelo, a pontapйs no traseiro; Cunegundes desmaiou; logo que voltou a si, foi esbofeteada pela senhora baronesa; e houve a maior consternaзгo no mais lindo e mais agradбvel dos castelos possнveis.

Do que sucedeu a Cвndido entre os bъlgaros Cвndido, expulso do paraнso terrestre, caminhou muito tempo sem saber por onde andava, chorando, erguendo os olhos ao cйu, voltando-os seguidamente para o mais lindo dos castelos que encerrava a mais linda das baronesinhas. Deitou-se, sem comer, em pleno campo, entre dois sulcos de lavoura, enquanto caia neve em grandes flocos.

Cвndido, transido, arrastou-se no dia seguinte atй a aldeia prуxima, que se chama Valberghoff-trarbk-dikdorff, sem dinheiro, morto de fome e de cansaзo. Parou tristemente а porta de uma estalagem. Dois homens trajados de azul deram com os olhos nele: — Camarada — disse um, — eis ali um rapaz de bom corpo e que tem a altura requerida. Dirigiram-se a Cвndido e convidaram-no polidamente para almoзar.

Pedem-lhe que aceite alguns escudos; ele os embolsa e quer passar recibo; nгo lho consentem, e sentam-se os trкs а mesa: — O senhor nгo ama ternamente? Й o mais encantador dos reis, e devemos erguer-lhe um brinde. E Cвndido bebe а saъde do rei. Em seguida aplicam-lhe cadeias aos pйs e o levam para o regimento. Fazem-lhe volver а direita , а esquerda, tirar a vareta, botar a vareta, — deitar por terra, atirar, correr, e dгo-lhe trinta bastonadas; no dia seguinte, faz o exercнcio um pouco menos mal e sу recebe vinte bastonadas; no outro dia sу recebe dez, e й olhado pelos camaradas como um verdadeiro prodнgio.

Cвndido, estupefato, ainda nгo atinava muito bem como poderia ser um herуi. Por um belo dia de primavera, lembrou-se de dar um passeio e seguiu direito em frente, na crenзa de que era um privilйgio da espйcie humana, como da espйcie animal, servir-se das prуprias pernas como bem lhe aprouvesse.

Ainda nгo andara duas lйguas, quando quatro outros herуis de seis pйs o alcanзam, amarram-no bem amarrado, e o metem num calabouзo. Perguntaram-lhe juridicamente se preferia ser fustigado trinta e seis vezes por todo o regimento ou receber, em uma sу descarga, trinta e seis balas de chumbo na cabeзa. Por mais que Cвndido alegasse que a vontade humana й livre, teve de fazer a escolha; resolveu, entгo, em virtude desse dom de Deus a que chamam liberdade, ser passado trinta e seis vezes pela vara.

Agьentou dois turnos. O regimento compunha-se de dois mil homens; isso lhe valera, atй entгo, quatro mil varadas que, da nuca ao traseiro, lhe puseram a descoberto todos os mъsculos e nervos.

Quando iam dar inнcio ao terceiro, Cвndido, nгo podendo mais, pediu por misericуrdia que tivessem a bondade de lhe arrebentar os miolos. Concedem-lhe esse favor; vendam-lhe os olhos e fazem-no ajoelhar-se. Nesse momento passa o rei dos bъlgaros, informa-se do crime do paciente; e, como esse rei tinha um grande gкnio, compreendeu, por tudo quanto soube de Cвndido, que se tratava de um jovem metafнsico, muito ignorante das coisas deste mundo, e concedeu-lhe a sua graзa com uma demкncia que serб louvada em todos os jornais e em todos os sйculos.

Um bravo cirurgiгo curou Cвndido em trкs semanas, com emolientes recomendados por Dioscуrides. Tinha jб um pouco de pele e podia amar, quando o rei dos bъlgaros travou batalha com o rei dos abaros.

De como Cвndido escapou aos bъlgaros, e do que lhe sucedeu depois. Nada tгo belo, tгo lesto, tгo brilhante, tгo bem ordenado como aqueles dois exйrcitos. As trombetas, os pнfanos, os oboйs, os tambores, os canhхes, formavam uma harmonia como jamais a houve no inferno.

Primeiro os canhхes derrubaram cerca de seis mil homens de cada lado; em seguida a mosquetaria varreu do melhor dos mundos uns nove a dez mil marotos que lhe infetavam a superfнcie. A baioneta foi tambйm a razгo suficiente da morte de alguns milhares de homens.

O que tudo montava a umas trinta mil almas. Cвndido, que tremia como um filуsofo, ocultou-se o melhor que pфde durante aquela herуica mortandade. Enfim, enquanto os dois reis mandavam cantar Te Deuns cada qual no seu campo tomou ele o partido de ir raciocinar alhures sobre os efeitos e as causas. Passou por cima de montхes de mortos e moribundos, e alcanзou primeiro uma aldeia vizinha; estava reduzida a cinzas: era uma aldeia abara que os bъlgaros haviam queimado, conforme as leis do direito pъblico.

Aqui, velhos crivados de golpes viam agonizar suas mulheres degoladas de cujo ensangьentado seio pendiam crianзas; alйm, soltavam os ъltimo suspiros raparigas destripadas: depois de haverem saciado os desejos naturais de alguns herуis; outras, meio queimadas, gritavam que lhes acabassem de vez com a vida.

Miolos se espalhavam sobre a terra, ao lado de pernas e braзos amputados. Cвndido fugiu o mais depressa possнvel para outra aldeia: pertencia aos bъlgaros, e os herуis abaros a tinham tratado da mesma forma.

Cвndido, sempre a andar por sobre membros palpitantes ou atravйs de ruнnas, deixou enfim o teatro da guerra, levando algumas provisхes no alforje e sem nunca esquecer a senhorita Cunegundes. Acabaram-se-lhe as provisхes ao chegar а Holanda; mas, tendo ouvido dizer que nesse paнs todos eram ricos e verdadeiramente cristгos, nгo duvidou que o tratassem tгo bem como no castelo do senhor barгo, antes de ser dali escorraзado por amor dos lindos olhos da senhorita Cunegundes.

Pediu esmola a vбrios personagens de ar grave e todos lhe responderam que, se continuasse a exercer tal ofнcio, o mandariam encerrar numa casa de correзгo, para ensinar-lhe a viver direito. Dirigiu-se depois a um homem que acabava de falar sozinho uma hora inteira sobre a caridade, perante uma grande assemblйia.

Esse homem, olhando-o de soslaio, indagou: — Que vieste fazer aqui? Desaparece das minhas vistas! A mulher do orador, chegando а janela e vendo um homem que duvidava que o Papa fosse o Anticristo, despejou-lhe na cabeзa todo o conteъdo de um У cйus! Um homem que ainda nгo fora batizado, um bom anabatista, chamado Jaques, viu de que maneira cruel e ignominiosa era tratado um de seus irmгos, um bнpede implume, que possuнa uma alma; levou-o para casa, limpou-o, deu-lhe pгo e cerveja, presenteou-o com dois florins, e atй quis ensinar-lhe a trabalhar na sua manufatura de tecidos da Pйrsia fabricados na Holanda.

No dia seguinte, ao passear, encontrou um mendigo coberto de pъstulas, os olhos mortiзos, a ponta do nariz carcomida, a boca de viйs, os dentes negros, falando pela garganta sacudido de acessos de tosse e cuspindo um dente a cada esforзo. CAPНTULO IV De como Cвndido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, o doutor Pangloss, e do que sucedeu Cвndido, mais tocado ainda de compaixгo que de horror, deu аquele espantoso mendigo os dois florins que recebera do bom anabatista.

O fantasma olha-o fixamente, derrama lбgrimas, e salta-lhe ao pescoзo. Cвndido, horrorizado, recua. Tu, o meu querido mestre! Tu, nesse horrendo estado! Que desgraзa te aconteceu? Por que nгo estбs ainda no mais lindo dos castelos? Que foi feito da senhorita Cunegundes, a pйrola das donzelas, a obra-prima da natureza? Cвndido o levou para o estбbulo do anabatista, onde lhe deu a comer um pouco de pгo. E, depois que Pangloss se refez: — Entгo — disse ele, — e Cunegundes?

A esta palavra, Cвndido perdeu os sentidos; o amigo o fez voltar a si com um pouco de mau vinagre que havia por acaso no estбbulo. Cвndido reabre os olhos: — Cunegundes morta! Mas de que morreu? Nгo seria por me ter visto expulsar a pontapйs do castelo do senhor seu pai? Ao ouvir tais coisas, Cвndido desmaiou outra vez; mas, voltando a si, e tendo dito tudo o que devia dizer, Indagou da causa e do efeito, e da razгo suficiente que pusera Pangloss em tгo lastimбvel estado.

Como pфde essa bela causa produzir, na tua pessoa, tгo abominбvel efeito? Pangloss respondeu nos seguintes termos: — У meu caro Cвndido! Bem conheceste Paquette, a linda criadinha da nossa augusta baronesa; gozei nos seus braзos as delнcias do paraнso, que produziram em mim estes tormentos do inferno de que me vкs devorado; ela estava infetada e talvez tenha morrido disso. Paquette ganhara esse presente de um franciscano muito erudito, que havia remontado а fonte, pois o adquirira de uma velha condessa, que o recebera de um capitгo de cavalaria, que o devia a uma marquesa, que a tinha de um pajem, que o tomara de um jesuнta que, quando noviзo, o herdara em linha reta de um dos companheiros de Cristуvгo Colombo.

Quanto a mim, nгo o passarei a ninguйm, pois estou para morrer. У Pangloss! Nгo seria o diabo que foi o tronco? Enquanto isto, vai ela fazendo um maravilhoso progresso entre nуs, e principalmente nesses grandes exйrcitos compostos de honrados mercenбrios, tгo bem educados, que decidem do destino das naзхes; pode-se assegurar que, quando trinta mil homens combatem em formaзгo contra tropas iguais em nъmero, hб cerca de vinte mil contaminados em cada campo.

Nгo tenho um vintйm, meu amigo; e, em toda a extensгo deste globo, nгo me pode nem fazer uma sangria, nem tomar uma lavagem, sem pagar, ou sem que haja alguйm que pague por nуs. Estas ъltimas palavras decidiram Cвndido; foi lanзar-se aos pйs do caridoso anabatista Jaques e fez-lhe uma pintura tгo comovente do estado a que se achava reduzido o seu amigo, que o nosso homem nгo hesitou em recolher o doutor Pangloss; mandou-o tratar а sua custa.

Pangloss, com a cura, sу perdeu um olho e uma orelha. Como tinha boa letra e sabia aritmйtica, o anabatista empregou-o como guarda-livros.

Dois meses depois, sendo obrigado a ir a Lisboa a negуcios, embarcou consigo os dois filуsofos. Pangloss explicou-lhe como tudo marchava o melhor possнvel. Jaques nгo era dessa opiniгo.

ALDELO MANUAL PDF

Cândido ou o Otimismo – Voltaire

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ALFRED SZKLARSKI TOMEK W KRAINIE KANGURW PDF

‘Cândido ou O otimismo’ que não se sustenta

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DFSORT UTILITY PDF

Cândido ou o Otimismo

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